Maqêdo | Um Olho Tapado

sábado, agosto 18, 2007 § 0

Passos decisos.
Ele sabe onde está indo. Carrega toda sua vida nas costas, mesmo que sejam apenas seus trapos, mas carrega. Não perguntem a ele onde vai, porque não responderá. E não fiquem em seu caminho. Maqêdo não faz curvas.

Passos rígidos.
Sem uma tontura sequer. Sem cambalear para os lados. Ele não tem mais dúvidas, hesitações, nada. Pode o mundo cair em reprimenda a ele, que não o afetará em nada. Ele sabe onde ir.

Passos de lucidez.
Pensa consigo, poucos podem gozar de tamanha lucidez. Os outros estão tão enclausurados em seus mundos ilusórios, que acabam tomando a lucidez pura e sincera de Maqêdo como a própria insanidade. Mas ele não se importa. Sabe que a perspectiva que tem com seus dois olhos o levará muito mais além que o resto do mundo com seu único olho e sua visão sem noção de distância.

Neutro

segunda-feira, agosto 13, 2007 § 0

É tudo sobre a beleza do céu monocromático.
Sobre os pensamentos coloridos escondidos debaixo de nuvens cinzas.
É uma felicidade pessoal, interior. A felicidade da garoa caindo, do vento gelado...

Gotas de memórias. Memórias de amores, de abraços intensos.
O inverno é o pano de fundo.
Se não tivéssemos o frio, nossos beijos não seriam tão quentes.

É a beleza do céu monocromático.
As cores neutras que expressam mais que qualquer vermelho.
É o frio na espinha, arrepiando o corpo todo.

Arrepio de paixão.
Paixão azul, paixão cinza.

Paixão de gotas de chuva.

Ataque de Paz

quarta-feira, agosto 08, 2007 § 0

É tudo sobre aquela sensação gostosinha.

Aquele momentinho só meu, todo encolhido, abraçando as próprias pernas.
Um sorriso de canto de boca, mais sincero que qualquer palavra jamais poderia ser.
Aquela sensação gostosinha de infância, de colorido.

Sou o Super-Homem! Olha minha capa grandona!

Um ataque de ingenuidade, de bondade, de transparência.
Um ataque de paz.

Sou o maior de todos! Vou proteger o mundo! Vou voaar!

Voaaaar!

O Incerto Silêncio

terça-feira, julho 24, 2007 § 0

Ao longo de toda minha vida, ouvi inúmeras vezes elogios de todos os tipos. Fossem minhas notas no período escolar, fosse a camisa pólo horrível que minha mãe gostava tanto, ouvi todos os tipos de adorações que pudessem descarregar sobre mim.

Passou-se anos, muitos anos, e continuam a me elogiar. Elogiam hoje coisas específicas da pessoa que me tornei, elogiam as casas que construí, que projetei. Elogiam a família imperfeita que amo tanto, os filhos perfeitos, pedaços de mim. É o resultado do que eu queria, das vontades que tinha, da pessoa completa que sempre quis ser. Do melhor que eu sempre quis ser. Melhor pra mim, melhor entre os concorrentes, o melhor entre todos.

E todos os elogios, sei que são sinceros. Eles elogiam o que vêem, o que sabem. Mas moldei isso durante toda minha vida.

Durante toda minha vida, tive desejos, metas, sonhos... O que as pessoas elogiam, e elogiaram durante toda minha vida, é o que eu tive, o que tenho. O que conseguir ter. E isso só é possível para elas porque nunca souberam do que nunca tive.

Nunca saberão de minhas pinturas borradas, minhas encenações frustradas... Nunca sequer imaginarão a quantidade de recusas que recebi de todos os festivais de cinema que anseei tão intensamente. Não sabem nem que fiz filmes.

Só sabem do arquiteto renomado, de suas construções faraônicas, de seus "pedaços de si mesmo espalhados pelo mundo", como alguns costumam ilustrar. Só sabem de meus cálculos, de minha matemática, física, estética... De tudo que tanto sei, mas nunca consegui inserir onde realmente quis.

Vivi uma vida em segredo. Enquanto todos me viam falar, gritar, só eu conhecia meu silêncio. O silêncio da incerteza, que depois se transformou no silêncio da derrota.

São meus sonhos tropeçando no caminho da vida, e ficando por lá, de cabeça baixa, sem jamais chorar. Só um silêncio, meus sonhos acenando distante enquanto continuo andando, e um "quem sabe na próxima vida?".

A Porta

quinta-feira, julho 19, 2007 § 0

Pode entrar em minha casa.
Invadir meu quarto.
Mas sujará seus pés de lama.

Linha Reta

quarta-feira, julho 18, 2007 § 0

Ela começa num ponto e termina num outro.
Mas não gira, não faz curva, não sobe, nem desce.
Ela representa o tempo.
Um tempo com começo, meio e fim, onde o fim se vê do começo, sorrindo seguro no horizonte, lá longe.
Ela representa o tempo.
Mas não o meu.

Maqêdo | Alienação por Amor

domingo, julho 15, 2007 § 0

A rua está movimentada como em qualquer outro dia.
Entre pessoas transitando, o casal conversa na calçada, próximos à esquina.
Estão alegres, entrosados, conversam como quem se conhece há anos. Logo vão se despedir. Cada um precisa ir para um local diferente agora.
Maqêdo olha de longe.
Está na esquina, ignorando os carros e pessoas passando. Só vê o casal.
Por algum motivo, eles o confortam. Seu entrosamento lhe dá uma sensação de leveza.
Olha fixo para eles, sacode os braços, está aprovando-os. Eles sim têm amor. Amor sincero. Disso Maqêdo entende.
Eles riem, percebem-no ali, percebendo-os. Riem desconcertados, lisonjeados. Têm a aprovação de Maqêdo. Isso é algo para poucos.
Ninguém mais o vê em celebração à emoção.
Se abraçam novamente, em comemoração.
Maqêdo abre seu sorriso sujo, sorriso sincero.
Em tanto tempo de vida (ninguém jamais saberá quanto), viu poucas vezes amor assim passar.
Vê concreto, muros, carros, mas ele já se esquecia do amor. Gradativamente foi sumindo de sua realidade, como um reflexo da realidade exterior, do mundo em que vive.
Ele sorriu, mas não só pelo casal. Sorriu por todos. Todos que se amam, que se gostam... Sorriu pela felicidade, pelo compartilhar, pelo dividir.
Sorriu por lembrar que em meio às pedras de sua cidade, sempre nascerão flores.
Maqêdo se sente leve.
De pouco em pouco, estão tirando o peso da sobriedade de seus ombros.
Está sentindo novamente a graciosidade da alienação.
A alienação por amor.

Artista do Espaço Sideral

sábado, julho 14, 2007 § 0

Me perguntam quem sou
Respondo "sou a dor"
Sou frescor
Sou conhecimento, sou a razão
Calor
Tesão

Querem saber que faço
Que asso? Quem caço?
Caço todos, todo dia
Vivo da carne de outros
Ardendo na minha, que agonia
Vivo do sangue, sou vampiro
Libertino

Me perguntam que cor tenho
Minha mão é vermelha
A outra é azul
De pintar o céu
Pintar o amor
Sou pintor
Sou escultor
Sou artista do mundo
Do universo
Do espaço sideral

Mineiro da Lua
Eletricista do Sol
Gari do lixo espacial

Me perguntam de onde venho
De seus desejos
Seus devaneios
Venho do bueiro, do esgoto
Do mar receoso
Das flores do canteiro

Cheiro a magnólias
A tulipas

Meus abraços de hera
De rosas vermelhas
Espinhos sinceros
Espinhos de amor
De um amor perfeito

Tenho mão vermelha
A outra azul
De pintar o céu
Pintar o amor
Sou pintor
Escultor
Sou artista do mundo
Do universo
Do espaço sideral

Poesia de Arranha-Céu

terça-feira, julho 03, 2007 § 0

O barulho dos carros não atrapalha. Até complementam. Fazem parte de uma sinfonia. São a base da música, o papel de parede, o cenário daquela peça.

Os atores são muitos, incontáveis, inimagináveis. Andando pelo infinito cenário, se tromba com todos eles, de todos os tipos.

Vou andando, vejo aquele de olhar distante, encostado na parede, procurando algo, alguém, onde está ela? Devo esperar? Estou preocupado. Olha esse cara bizarro passando, que cabelo é esse? Meu cabelo está bom? Deve estar muito chamativo. Aquele cara na parede tá olhando pra mim...

Pelo cenário, vê-se de tudo, de todos, todos os tipos, acostuma-se com tudo. Aquela roupa incompreensível se torna tão comum, divertida, te alegra os olhos. Pessoas felizes, sendo elas mesmas, as invejo, as admiro, me inspiram.

Inspiro outros, vejo nos olhares, olhares trocados, roubados, será que estava olhando pra mim? Como era linda. Droga, deixei passar. Será que estava olhando pra mim? Como era lindo. Droga, deixei passar.

Olhamos todos, procuramos alguém que procure também. Alguns já acharam, são felizes, os invejo, os admiro. Encontro-os nos becos escuros, nas salas de cinema, nas cadeiras de bar lado a lado, de braços dados, no meio da rua, num abraço apertado. Se beijam como jovens apaixonados, como se fosse o primeiro amor, a primeira paixão, a recriprocidade, a sensação de inédito, sensação de amor, meu Deus te amo, como te amo. Quero ficar aqui pra sempre, ele fala baixinho no ouvido dela, que estremece, te amo também, te quero pra sempre, pensa consigo. São amores fortes, amores de todos os tipos, de toda intensidade, ou sem felicidade, nem amor, só amargura, uma discussão no meio da rua, lágrimas caindo, gotas de chuva, o céu está cinza, está feio, sem alegria, sem amor, só uma recordação da tarde de sol que antes fora, só recordações, de um tempo bonito, de um céu cor de rosa. Aquela rosa que te dei. Te amei. Agora é só neblina. O tempo não vai melhorar. Preciso ir embora. Agora.

Vou correr, trombar com outros. O cenário é grande, os atores são muitos, são brutos, vazios de tudo. É oco, sem nada dentro, sem história, sem passado, olha pro nada, olhar vazio, vê nada, espera nada, nem ninguém, sem alguém, sem propósito, sem começo, nem meio, nem fim.

É noite, penduram a lua no fundo do cenário, atrás dos prédios, sorridentes, espectadores. Assistem a peça, os atores andando de um lado pro outro lá embaixo, cada um com sua história, sua felicidade, tristeza, sua pressa, sossego, cansaço, estou exausto, estou tão animado, a noite está linda, ficarei aqui pra sempre, meu celular está tocando. Cada um com sua história, seu começo meio e fim, suas conversas, meu celular está tocando, seus coadjuvantes, é meu irmão, e seus compromissos, preciso ir embora.

Fitas de Cetim

quarta-feira, junho 13, 2007 § 0

E quem quer entrar na dança?
Pra frente, pro lado
Tropeçar, cair de quatro
Na boa vontade, quase alcança
Mas a dança é nossa
Tão formosa
Rápida
Misteriosa
Na boa vontade, quase alcança
Mas ninguém balança
A dança é nossa
A dança é minha
Vou rápido e brusco
Você só caminha
Te jogo pra cima
Você é minha
Cai no chão
"Não sou não"
A dança é um solo
Não cabe mais ninguém
É muito perigoso
Posso machucar alguém.

Escuro

terça-feira, junho 12, 2007 § 0

De quem é o rosto que você vê quando deita a cabeça e fecha os olhos?

Concretismo

sexta-feira, junho 08, 2007 § 0

Se a mentira tivesse um formato, indiscutivelmente seria uma esfera brilhante prateada, e à exceção de um microscópico racho na parte inferior dela, uma esfera perfeita. O gosto, obviamente, uma deliciosa mistura do doce do mel e do cacau.

A verdade, por outro lado, certamente seria um fragmento uniforme viscoso numa coloração meio rosada, meio albina, coberto de uma gosma esbranquiçada, com um repulsivo gosto azedo de remédio para lumbriga.

Para Meu Dia Nascer Feliz

quinta-feira, junho 07, 2007 § 0

Cores

Porque certas vezes é preciso largar mão, parar de se preocupar, parar de enxergar cinza em tudo.

O mundo é colorido demais. Só precisamos ver.

Preto e branco jamais nos levarão a qualquer lugar. Cores saturadas não nos trarão felicidade.

Certas vezes, é preciso enxergar o céu roxo prendendo a respiração, brincando de quem agüenta mais tempo sem respirar. Ou árvores amarelas, se fingindo de ouro, mostrando todo seu brilho.

É preciso enxergar cores mesmo onde não tenha. Porque, se virmos, então terá. Nosso mundo será tão colorido quanto quisermos. Só depende de nós, de nossos olhos, do que queremos ver.

Não podemos deixar o daltonismo nos dominar, e tomar nossa percepção.

O mundo é colorido sim.

E nós iremos ver.

Maqêdo | A Máquina

quarta-feira, junho 06, 2007 § 0

Maqêdo permanece em pé. Mantém um olhar seco, centrado, enquanto alimenta os pombos em sua volta.

Não tem preocupações. Hoje não é dia de preocupações.

Respira com calma, e viaja os olhos pelo chão enfestado de pombos, enquanto pedaços de pão voam de suas mãos.

Não está interessado no que está à sua volta. Não, não hoje.

Maqêdo acredita sinceramente que a única forma de tudo se resolver, é com cada um fazendo sua parte. Ele vê o mundo como uma grande máquina operada por incontáveis pessoas, mas a máquina só funciona quando todos, absolutamente todos, fazem apenas a sua parte, e nada mais. Nenhuma interferência.

Ele acordou, e veio calmo até os pombos. Sabia que nada mais existia no mundo para fazer. Sua parte era aquela. Sua função na Grande Máquina era aquela, então concentrou-se, e fez o melhor que pôde.

Nada mais em volta importava. Não devia se importar. Só devia se concentrar ali, em si mesmo, e em seus pombos.

Genialidade

sábado, junho 02, 2007 § 0

Você é especial, você tem idéias inteligentes, inovadoras, únicas. Mas elas não valem de nada enquanto você não executá-las.

Você pode ser um gênio, mas se ninguém mais viu isso, você é um gênio apenas dentro de si, porque toda a sua genialidade vai morrer com você.

E se tudo de especial que você tinha, você deixou morrer consigo, então você nunca teve nada de especial.

Nada de genial.

Nada.

Porque a genialidade não está nas idéias, mas na execução delas.

Ter idéias e não executá-las ainda é não ter idéias.

Mundo/Tempo Pt. 2

quinta-feira, maio 31, 2007 § 0

O que nós temos são valores.

São valores próprios, valores dos outros, da sociedade, de nossos amigos, de nossos parentes. Carregamos conosco a mais variada quantidade de valores. Carregamos os nossos, respeitamos os de nossos familiares, consultamos o de nossos amigos.

Nós também temos metas. Metas nossas, só nossas. Mas, devemos conquistá-las através de nossos valores próprios, respeitando o de nossos familiares, e consultando o de nossos amigos. Como conciliar tudo? Conciliar todos, todas as opiniões...

Até onde devemos seguir o roteiro pré-formulado para nós? Devemos seguí-lo? Ou devemos criar o nosso próprio roteiro, seguir nossos instintos..? Devemos confiar em nós mesmos?

Como convencer os outros de que o seu roteiro é o melhor para você? É o seu filme, você é o diretor, e você realmente confia no roteiro. Não aquele editado e reformulado pelos executivos do estúdio, mas aquele escrito pelo roteirista que ninguém conhece, mas que você sabe que é bom. Aquele roteirista que você sabe que tem talento. Como você vai convencer todas as outras pessoas envolvidas no filme, todos os produtores, os patrocinadores, todos, de que aquele é o caminho que você realmente acha que deva ser seguido?

Você realmente tentará convencê-los, ou abrirá mão, seguindo seu caminho, produzindo-o independentemente, ao lado de pessoas que nunca precisou convencer para estarem do seu lado?

São valores, muitos valores... Valores demais para um único filme.
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