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A palavra vive

segunda-feira, agosto 26, 2013 § 0

Nascemos com a semente da palavra dentro de nós. Somos seu pergaminho, mantendo-a viva. Deixamos amadurecer, tomar cor, e então...
Vida!
Plantamos esta semente aqui, ali, vamos plantando a ideia em nosso caminho. Somos Elzéard Bouffier da ideologia, dos sentimentos. Cultivamos esta comunicação na esperança de se encontrar nos braços literários de outro.
Plantamos nossa palavra aguardando que outros cheguem e a reguem, a amem, digam palavras doces sobre suas folhas, sobre seus frutos; que os colham e utilizem-nos para salvar um enfermo, ou mesmo alguém que não saiba precisar do fruto da palavra.
Os frutos caem com o bater dos ventos, as sementes crescem, dão novas folhas, flores, novos frutos, novas palavras. A palavra se multiplica, a palavra se alastra, a palavra alcança.
A palavra vive.

Aquele toque

domingo, janeiro 13, 2013 § 0

Posso começar do fim, e dizer que o início é a turbulência. Claro, como poderia se iniciar na calma, numa demasiada fragilidade? A verdade que se configura é uma pura tempestade. Quantos pensamentos. É o aliciamento dos sentimentos, aqueles, que não possuímos, como a palavra que escrevo. São do outro. São dele, dela. Guardam os sentimentos na garganta, deixando seus desejos inflamarem, queimarem o corpo com tanta facilidade.
Posso começar do fim, e dizer que o início é o toque. Ele, justo ele, começa a história, quando sentimos o outro e percebemos constatamos sua realidade, construindo o que imaginamos, vendo urgir esta necessidade do corpo do outro, tanta sagacidade para unificar esta dualidade. Deixa-se escorrer a inabilidade para tornar-se o gestor da sensação. É, de antemão, o louco da paixão, e então toca. Toca o outro. O último ato é de fato o primeiro, onde germinam as sementes, pulsando este sentimento que retorna, que vem, e não se vai, apenas percorre o corpo dentro das veias, dentro da pele, é a própria carne que nos envolve, e nos devolve esta vontade, esta habilidade em dividir desta única verdade: a de que a saudade do toque é aquilo que nos move. Este tempo entre o toque é o enfoque do pensamento. Os segundos que o antecedem são esta eternidade, a dor de uma imensa ansiedade.
Posso acabar com o início, e dizer que o fim é, enfim, esta fragilidade.

Uma só conversa

sábado, julho 14, 2012 § 0




A conversa é o motor da nossa alma. Dirige nossos pensamentos à via de si, carregando o fruto de nossa natureza enquanto amadurece na caçamba de nossa pureza.
Ela dita o ritmo dos passos que dançaremos ao tocar a música de uma palavra trocada, sorrindo as descrições de uma personalidade alcançável, enquanto tateamos uns aos outros no escuro do descobrimento.
Recebemos o presente da presença compartilhada, partindo de nômades do conhecimento a cultivadores do sentimento, plantando o próximo e colhendo a si mesmo a cada instante, soltando-se amadurecido da árvore da Vida prontos para redescobrir a fronteira do eu.
Inaptos a reconhecer o fim, procuramos semear a eternidade de um debate, assoprando o perfume de uma dúvida ansiosos para inalar a bondade de uma resposta, redesenhando cada começo, certos de que, enfim, nos encontraremos no meio.

Medo

sexta-feira, julho 06, 2012 § 0

Ter o frio coçando o ventre nos incapacita das funções mais básicas; retira de nós o propósito do ser. Tornamo-nos o ventríloquo de nós mesmos, obrigando-nos a cumprir regras estapafúrdias que traçamos num momento de desespero, em que vimos nada ou ninguém à nossa volta além de nós mesmos rodopiando em torno de nossa própria redundância.
Queremos o que queremos e não podemos, e isso nos mata, lentamente, dentro de nossa mente amedrontada, incapaz de aguardar a vida por um momento sequer, sem nem mesmo querer descobrir quanto é um momento, sem querer enxergar ou utilizar os sentidos para com a ajuda disponível à nossa volta, certos de que somos os únicos desbravadores de nossa própria vida, uma certeza frágil e sem embasamento, certos de que a dúvida calcificará os alicerces do nosso conhecimento, sem sentir a brisa gélida de um ser descoberto e desamparado do mundo a não ser por seu único e confiável amigo: o medo.

Livro de receitas

terça-feira, julho 03, 2012 § 0



Um livro de receitas é a agenda de uma família, que não se toca a não ser nos momentos de segredo revelado, uma mágica pontual, onde confessamos a habilidade de concretizar histórias inéditas e, ainda que não, guardamos a sensação de revisitar uma ação que nos é benéfica, e diz mais sobre nós do que mil palavras assadas.

Um incorrigível desejar saber

quarta-feira, junho 13, 2012 § 0

Um incorrigível desejar saber é o pensamento nutrido não firmado em páginas cruas e não temperadas, embora desejadas por cozidas ou refogadas, numa fome insaciável do pão abençoado, frente um anseio iminente de tecer o não colorido e de comer o ainda não preparado, a partir de um passo não ensaiado e de um refúgio desistido. Uma linha prevista sobre uma folha frita, e acaba que o desconhecido se torna iludido, e o passado permanecido.

Mórbido Silêncio

sexta-feira, junho 24, 2005 § 5


O silêncio... O silêncio que precede a discussão, que abandona a briga, e que finaliza a guerra. O silêncio maldito que impulsiona o desentendimento, o mal-entendido. O silêncio da desgraça, o silêncio problemático. O silêncio que omite o principal, o essencial, o necessário, o básico, o irrelevante, o fútil... O silêncio que omite tudo. O silêncio que constrói uma muralha entre tudo e todos. O silêncio que só faz distanciar. O silêncio que oculta tudo de todos, todos de todos, um por um. O silêncio que destrói lenta e dolorosamente. O silêncio que destrói rapida e imperceptivelmente. O silêncio hipócrita da negação. O silêncio que é a suposta solução da insolúvel equação da discórdia. O bendito silêncio da bifurcação. A bifurcação no caminho da "vida" do casal apaixonado. O amaldiçoado silêncio da raiva. O silêncio da cólera. O mórbido silêncio.
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