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Maqêdo | A raíz

terça-feira, agosto 20, 2013 § 0

Maqêdo tem seus leitores enquanto personagem, porém nenhum ouvinte enquanto pessoa.
Ele vive.
Você vive.
Eu vivo.
Porém eu sou visto, você é amado, Maqêdo é ignorado. Como é possível amar palavras mais que um ser vivo?
Eu o lia enquanto carne.
Tu o lês enquanto intangível.
Leia, por favor, leia, leia, leia seu próximo. A poesia vive na carne que respira.

Maqêdo | A próxima ausência

quarta-feira, julho 11, 2012 § 0

Uma espera torna-se obsoleta se seu motivo esquece-se de ressurgir. A dinâmica de uma máquina vê seu propósito se esvair.
Ele não está aqui, e com ele se foram os nós dos dedos, os cravos das rosas, a canela do arroz e até os pés do moleque. Seu desapego é cego, e sua presença despede-se sem voz. Quis eu que seu retorno me reanimasse, mas uma proximidade nunca pareceu tão distante.
Ele se foi.

Maqêdo | Além das Pedras e Areias

terça-feira, março 03, 2009 Comments Off

Sendo esta uma dádiva incomum, existem poucos aqueles que ultrapassam certas barreiras.

Como um personagem incomum que, dentro de sua própria história, enxerga teu narrador como um de si. Um igual.

Maqêdo, como um personagem incomum, sem sê-lo de fato, aponta-me seus dedos grossos de sabedoria encardida olhando em desencontro aos olhos meus, dizendo-me silenciosamente que conhece mais do mundo que minhas palavras conhecem dele.

Este vê-me.

Como alguém incomum, alguém além, este testa-me a compreensão mostrando-se capaz de atravessar certos limites que acreditamos existir, enxergando além das pedras e areias com as quais nos encobrimos, reclusos, além da carne, além dos olhares, além das linhas, além do fim, além de nós, além de mim.

Este vê-me.

Maqêdo | O Fim

quarta-feira, abril 09, 2008 Comments Off

E à frente das altas chamas da fogueira ao fundo, queimando forte em meio a todos, Maqêdo caminha até a borda, e ergue a cabeça em afronta a eles, enquanto diz, como um último suspiro de sanidade em si:

"Este é o fim."

Maqêdo | Um Olho Tapado

sábado, agosto 18, 2007 § 0

Passos decisos.
Ele sabe onde está indo. Carrega toda sua vida nas costas, mesmo que sejam apenas seus trapos, mas carrega. Não perguntem a ele onde vai, porque não responderá. E não fiquem em seu caminho. Maqêdo não faz curvas.

Passos rígidos.
Sem uma tontura sequer. Sem cambalear para os lados. Ele não tem mais dúvidas, hesitações, nada. Pode o mundo cair em reprimenda a ele, que não o afetará em nada. Ele sabe onde ir.

Passos de lucidez.
Pensa consigo, poucos podem gozar de tamanha lucidez. Os outros estão tão enclausurados em seus mundos ilusórios, que acabam tomando a lucidez pura e sincera de Maqêdo como a própria insanidade. Mas ele não se importa. Sabe que a perspectiva que tem com seus dois olhos o levará muito mais além que o resto do mundo com seu único olho e sua visão sem noção de distância.

Maqêdo | Alienação por Amor

domingo, julho 15, 2007 § 0

A rua está movimentada como em qualquer outro dia.
Entre pessoas transitando, o casal conversa na calçada, próximos à esquina.
Estão alegres, entrosados, conversam como quem se conhece há anos. Logo vão se despedir. Cada um precisa ir para um local diferente agora.
Maqêdo olha de longe.
Está na esquina, ignorando os carros e pessoas passando. Só vê o casal.
Por algum motivo, eles o confortam. Seu entrosamento lhe dá uma sensação de leveza.
Olha fixo para eles, sacode os braços, está aprovando-os. Eles sim têm amor. Amor sincero. Disso Maqêdo entende.
Eles riem, percebem-no ali, percebendo-os. Riem desconcertados, lisonjeados. Têm a aprovação de Maqêdo. Isso é algo para poucos.
Ninguém mais o vê em celebração à emoção.
Se abraçam novamente, em comemoração.
Maqêdo abre seu sorriso sujo, sorriso sincero.
Em tanto tempo de vida (ninguém jamais saberá quanto), viu poucas vezes amor assim passar.
Vê concreto, muros, carros, mas ele já se esquecia do amor. Gradativamente foi sumindo de sua realidade, como um reflexo da realidade exterior, do mundo em que vive.
Ele sorriu, mas não só pelo casal. Sorriu por todos. Todos que se amam, que se gostam... Sorriu pela felicidade, pelo compartilhar, pelo dividir.
Sorriu por lembrar que em meio às pedras de sua cidade, sempre nascerão flores.
Maqêdo se sente leve.
De pouco em pouco, estão tirando o peso da sobriedade de seus ombros.
Está sentindo novamente a graciosidade da alienação.
A alienação por amor.

Maqêdo | A Máquina

quarta-feira, junho 06, 2007 § 0

Maqêdo permanece em pé. Mantém um olhar seco, centrado, enquanto alimenta os pombos em sua volta.

Não tem preocupações. Hoje não é dia de preocupações.

Respira com calma, e viaja os olhos pelo chão enfestado de pombos, enquanto pedaços de pão voam de suas mãos.

Não está interessado no que está à sua volta. Não, não hoje.

Maqêdo acredita sinceramente que a única forma de tudo se resolver, é com cada um fazendo sua parte. Ele vê o mundo como uma grande máquina operada por incontáveis pessoas, mas a máquina só funciona quando todos, absolutamente todos, fazem apenas a sua parte, e nada mais. Nenhuma interferência.

Ele acordou, e veio calmo até os pombos. Sabia que nada mais existia no mundo para fazer. Sua parte era aquela. Sua função na Grande Máquina era aquela, então concentrou-se, e fez o melhor que pôde.

Nada mais em volta importava. Não devia se importar. Só devia se concentrar ali, em si mesmo, e em seus pombos.

Maqêdo | Lágrimas e Rezas

sexta-feira, maio 11, 2007 § 0

No mundo, há muitas pessoas que rezam. Não importa quando, como, nem com que freqüência. Mas existe um ponto em que todas, de alguma forma, acabam rezando. Seja numa confissão de desejo baixinho para si mesmo, figurando algo na mente em troca, seja ajoelhado, lamuriando aos prantos.

Maqêdo reza. Ele anda agitadamente, apoiado em seu pedaço de madeira, e vai até o local o mais alto no meio das pessoas, literalmente no meio, onde todas passam rapidamente com seus móveis de quatro rodas. Olha bem em volta, olha para todos, para tudo, fixamente. Ergue seu cetro, e começa a lamentar em voz alta, tão alta, que ninguém o ouvia. E ele sabia disso. Lamentava por isso também. Todos, tão preocupados com suas próprias vidas, fazendo ruídos ensurdecedores com suas carroças à gasolina, e ninguém o ouvia.

Ele grita, chacoalha seu cajado aos céus, lágrimas escorrem por seu rosto negro, suas barbas brancas. Lamenta por eles, todos eles. Anda em seu gramado, balançando, chorando, pedindo que mudem, que vejam, que entendam.

Fecha a cara, aponta o cajado para um, bem distante, e gira em torno de si mesmo, apontando para todos, enfurecido, praguejando, blasfemando.

As pessoas seguem reto, seguem rápidas, intocáveis, inatingíveis.

Maqêdo perde-se de vista, deixado para trás. Transforma-se num ponto pequeno, bem distante, ao fundo do espelho retrovisor. Maqêdo desaparece para sempre, até o dia seguinte.

Maqêdo | Apresentação

terça-feira, maio 01, 2007 § 0

Existe um homem. Ele pode ser visto todos os dias.

Faz uso de uma camiseta e calça, ambas pretas, ambas velhas, ambas rasgadas, sujas, fedidas. Sapato, em estado igual, com exceção à cor, marrom.

Como acessório, carrega um cobertor às costas. Xadrez. Velho. Rasgado, sujo, fedido.

É visto todos os dias, religiosamente, no mesmo centro da cidade, através das ruas, dos pontos de ônibus, dos olhares amedrontados, das expressões de desprezo e repugnância.

Coisa que poucos sabem, é que ele retribui as expressões de desprezo e repugnância igualmente.

Caminhando meio torto por entre as multidões de pessoas receosas, pessoas vomitando olhares, ele, com seu copo descartável branco na mão direita, o ergue de forma sutil, uma ofensa que só ele compreende, enquanto resmunga palavras desconhecidas e impronunciáveis, desdenhando essas pessoas vazias e fáceis vivendo em seus mundinhos vazios e fáceis.

Ele as desdenha, com prazer. Pessoas rasas, com morais tortas e dignidade rachada.

Rí das pessoas escorregando para longe dele. Rí do medo inexplicável que elas criam dentro delas. Com tantas coisas terríveis no mundo, em suas casas, nelas mesmas, elas resolvem sentir medo dele.

Olha de canto para elas, de forma sutil e despreocupada, cuspe ao chão, e pára ao lado da única pessoa que o ignorou como ele deveria ser ignorado, e murmura sons de reprovação às outras pessoas, como um amigo que puxa o outro para difamar próximo à orelha.

Continua andando. Resolve dar algo a elas, algo que elas se recusam a dar a ele. Ele as ignora. Ignora da mesma forma como elas deveriam ignorá-lo, e não o fazem. Porque era só isso o que ele queria. Era só o que ele era. Algo a ser ignorado.
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