Maqêdo | Lágrimas e Rezas

sexta-feira, maio 11, 2007 § 0

No mundo, há muitas pessoas que rezam. Não importa quando, como, nem com que freqüência. Mas existe um ponto em que todas, de alguma forma, acabam rezando. Seja numa confissão de desejo baixinho para si mesmo, figurando algo na mente em troca, seja ajoelhado, lamuriando aos prantos.

Maqêdo reza. Ele anda agitadamente, apoiado em seu pedaço de madeira, e vai até o local o mais alto no meio das pessoas, literalmente no meio, onde todas passam rapidamente com seus móveis de quatro rodas. Olha bem em volta, olha para todos, para tudo, fixamente. Ergue seu cetro, e começa a lamentar em voz alta, tão alta, que ninguém o ouvia. E ele sabia disso. Lamentava por isso também. Todos, tão preocupados com suas próprias vidas, fazendo ruídos ensurdecedores com suas carroças à gasolina, e ninguém o ouvia.

Ele grita, chacoalha seu cajado aos céus, lágrimas escorrem por seu rosto negro, suas barbas brancas. Lamenta por eles, todos eles. Anda em seu gramado, balançando, chorando, pedindo que mudem, que vejam, que entendam.

Fecha a cara, aponta o cajado para um, bem distante, e gira em torno de si mesmo, apontando para todos, enfurecido, praguejando, blasfemando.

As pessoas seguem reto, seguem rápidas, intocáveis, inatingíveis.

Maqêdo perde-se de vista, deixado para trás. Transforma-se num ponto pequeno, bem distante, ao fundo do espelho retrovisor. Maqêdo desaparece para sempre, até o dia seguinte.

Maqêdo | Apresentação

terça-feira, maio 01, 2007 § 0

Existe um homem. Ele pode ser visto todos os dias.

Faz uso de uma camiseta e calça, ambas pretas, ambas velhas, ambas rasgadas, sujas, fedidas. Sapato, em estado igual, com exceção à cor, marrom.

Como acessório, carrega um cobertor às costas. Xadrez. Velho. Rasgado, sujo, fedido.

É visto todos os dias, religiosamente, no mesmo centro da cidade, através das ruas, dos pontos de ônibus, dos olhares amedrontados, das expressões de desprezo e repugnância.

Coisa que poucos sabem, é que ele retribui as expressões de desprezo e repugnância igualmente.

Caminhando meio torto por entre as multidões de pessoas receosas, pessoas vomitando olhares, ele, com seu copo descartável branco na mão direita, o ergue de forma sutil, uma ofensa que só ele compreende, enquanto resmunga palavras desconhecidas e impronunciáveis, desdenhando essas pessoas vazias e fáceis vivendo em seus mundinhos vazios e fáceis.

Ele as desdenha, com prazer. Pessoas rasas, com morais tortas e dignidade rachada.

Rí das pessoas escorregando para longe dele. Rí do medo inexplicável que elas criam dentro delas. Com tantas coisas terríveis no mundo, em suas casas, nelas mesmas, elas resolvem sentir medo dele.

Olha de canto para elas, de forma sutil e despreocupada, cuspe ao chão, e pára ao lado da única pessoa que o ignorou como ele deveria ser ignorado, e murmura sons de reprovação às outras pessoas, como um amigo que puxa o outro para difamar próximo à orelha.

Continua andando. Resolve dar algo a elas, algo que elas se recusam a dar a ele. Ele as ignora. Ignora da mesma forma como elas deveriam ignorá-lo, e não o fazem. Porque era só isso o que ele queria. Era só o que ele era. Algo a ser ignorado.

O Deserto dos Pássaros Aquáticos

quinta-feira, março 15, 2007 § 0

Eles não sabiam o que eram, nem por que existiam. Mas isso nunca foi problema.

Para eles, mais importante do que saber o que eram, ou sua razão no mundo, era saber que eles existiam.

Não importava o por que, ou pra quê. Só importava saber que eles estavam lá, vivendo.

Todo o resto, eram detalhes ínfimos.

Diário de Lavínia Opperman

sexta-feira, março 09, 2007 § 0

5 de Agosto de 2039

Depois de tantas coisas escritas, sentimentos transcritos, histórias narradas, apenas agora fui parar para perceber como consigo falar de mim mesma de forma tão casual, fluida, quase como se estivesse conversando com meus amigos.

Devo ter herdado isso de minha mãe. Às vezes noto em mim a agitação e animação que ela costuma ter quase sempre. Certamente não foi de meu pai que herdei isso.

Pessoa fechada, ao mesmo tempo que descontraído. Fala, e se deixar, fala bastante, mas nunca sobre si próprio. Nunca entendi bem isso, apesar de já termos conversado sobre. Às vezes penso que, talvez, se ele não fosse tão sério e fechado, não teria chegado tão longe na vida. Mas mesmo assim, às vezes sinto falta daquela liberdade nas conversas como tenho com minha mãe. E tudo isso acaba sendo engraçado, porque por mais distante que ele se coloque, é dele meu maior afeto (e que minha mãe não leia isso!). Não sei bem por que, mas sempre, desde pequena, eram os abraços dele que mais me emocionavam e confortavam, eram as conversas dele que mais me interessavam, era dele quem mais sentia falta nas férias.

Mesmo assim, não é exatamente algo que eu pretenda ter com meus filhos. Não quero nutrir essa barreira na minha relação com meus filhos. Na verdade, acho que eu nem deveria estar pensando nisso agora; é muito cedo ainda (e sempre digo isso, e sempre acabo pensando nisso). É, acho que estou fadada a ser uma dona-de-casa. Só não sei bem quanto tempo ficarei casada com meu marido. Espero que até lá eu tenha resolvido esse meu lado meio-apático.

Minhas amigas costumam comentar sofrerem do mal da falta de interesse depois de algum tempo. Comigo é quase o inverso. Eu demoro pra me apegar a alguém. Diz minha mãe que herdei isso dela, porque meu pai era o homem mais apaixonado que ela tinha visto até então, enquanto ela nunca foi de se surpreender facilmente. Isso é comprovado pelo fato de eles só terem começado a sair oficialmente muitos anos depois de se conhecerem. Eles dois têm história, acredite.

Às vezes fico olhando meus amigos, brincando de descobrir qual deles será meu marido. Alguns dias dá empate, em outros ninguém ganha. É justamente esse meu medo. De que, num dia, meu marido seja o homem mais lindo do mundo, e na semana seguinte, seja apenas aquele senhor de rosto sério e sombrancelhas franzidas que mora em minha casa. Ninguém tem controle sobre isso. Todos nós sabemos que tudo é eterno enquanto dura. Então, acabo chegando na conclusão de que é simplesmente um risco a correr. Acredito que não devemos nos perguntar se estamos dispostos a passar o resto da vida com aquela pessoa, mas se estamos dispostos a concretizar o que temos agora, e dispostos a lutar pra que aquilo dure o máximo possível.

Apesar de que, com certeza, quem me conhece diria que não sou a pessoa certa pra falar de relacionamentos duradouros; principalmente meus ex-namorados. Nunca deu certo de fato com qualquer um deles. Era algo bom, que me rendia história e experiência, mas eu sinto como se eu nunca houvesse tido uma história especial, aquela coisa deliciosa que guardamos conosco pelo resto da vida, mesmo que não tenha terminado como gostaríamos ou esperávamos.

Receio que eu nunca vá ter uma história especial assim. Que eu nunca terei músicas, lugares, objetos que me transportassem pra um universo passado, outra vida, outros sentimentos, outras pessoas...

Mas aí eu me lembro que sou jovem. Muito jovem. E apesar de isso ser relativo, eu sou de fato jovem, muito jovem, o que me dá grandes esperanças de viver algo assim futuramente. Acho que só devo esperar.

Não. Meu pai brigaria comigo se me ouvisse dizer que preciso esperar. Me mandaria viver a vida, viver cada momento, e não esperar o grande acontecimento, mas viver minhas histórias, que sozinhas traçarão o caminho até o grande acontecimento, a grande história. E terminaria dizendo que esse papo de "histórias especiais" são idiotices, porque tal coisa não existe, ou existe demais, dependendo do ponto de vista. Porque não existe uma grande história especial em nossa vida, mas um grande número de histórias, histórias que montam nossa vida, e que tornam nossa vida especial.

Então, vou viver minha vida. Por mais que erros possam ser cometidos, e escolhas mal tomadas, é um risco que eu decidi correr. Não posso mais esperar grandes pessoas em minha vida. Agora é hora de eu procurá-las, e torná-las especiais.

Ninguém fará isso por mim, senão eu mesma.

Cidade Fantasma

sexta-feira, fevereiro 16, 2007 § 0

A poeira no parapeito de uma janela. Ela continua aberta pela metade, do mesmo jeito que estava quando a abriram pela última vez.

O vento sopra forte lá fora, puxando as cortinas, fazendo-as dançar em ritmo frenético, ao som intenso da voz do vento, assobiando baixinho, bem agudo, elogiando a dança que observa atentamente com um de seus olhos.

O vento carrega consigo inúmeros olhos, que vagam pela cidade, assistindo a tudo. Com seus braços fortes, agita as árvores, querendo que dancem como as cortinas, mas elas não foram feitas para isso, e começam a resmungar contra o vento, emitindo um som seco, como folhas se chocando, e caindo na terra molhada. Terra molhada, que estava a admirar a discussão acima dela, concordando com o vento, porque estava brigada com a árvore desde que percebeu que ela nunca foi sua amiga; só estava usando-a para abrigar suas longas e irregulares caudas.

Havia cansado dali, e começou a andar pela avenida principal. Todas as ruas eram feitas de pura terra, o que dava a ela uma certa sensação de orgulho.

Admirava as construções ali localizadas. Grandes casas de madeira enfileiradas lado a lado, do começo ao fim da avenida. Esta era a cidade.

Não entendia bem o que acontecia em cada uma daquelas casas, mas já havia percebido que cada uma abrigava objetos diferentes dentro, que as pessoas entravam para levá-las. Eram, na verdade, lojas de comércio, intercaladas por casas convencionais, onde famílias numerosas costumavam se comprimir dentro.

Elas não gostava muito destas tais construções, porque nunca podia ver dentro delas. Todo chão era revestido de tábuas de madeira. Era, aliás, uma certa intriga entre a terra e a madeira, porque apesar de a terra poder ver praticamente tudo ao longo da cidade, era a madeira quem podia ver dentro destas lojas. A madeira, aliás, costumava sempre se vangloriar por isso.

Mas ultimamente, não pôde rir tanto. Suas tábuas haviam se tomado de poeira, e vivia sendo atacada por antropofágicos cupins. Não sabia mais o que fazer. Ela não sabia se cuidar sozinha. Sempre esteve sob os cuidados dos homens, mas desde que estes desapareceram da cidade, nada mais foi o mesmo.

Ninguém jamais soube o que aconteceu com os cidadãos. Nem os ventos, com seus incontáveis olhos invisíveis, nem a terra, que se alastrava pela cidade, dando superfície a tudo e todos. Desde que eles sumiram, a cidade havia entrado nos chamados Novos Tempos.

Por muito tempo, indagou-se quem tomaria o controle depois do Tempo dos Homens. Nunca se proporam a votar, porque aquilo nunca foi uma democracia. Mas quase todos concordavam na certeza de que seria a terra. Era uma das mais velhas e experientes, esteve lá desde a criação, e podia ver praticamente tudo, e desde que os homens desapareceram, ver dentro das lojas e casarões já não tinha importância, porque nada mais acontecia lá.

No dia em que todos acordaram, e viram que os homens haviam desaparecido, a terra já estava se tratando como a nova comandante. E foi, por algum tempo. Mas ainda havia um concorrente aos Novos Tempos que todos haviam negligenciado. Antes mesmo que a terra pudesse começar a fazer suas mudanças, já podia-se notar a estranha movimentação de alguém insignificante, até então.

Sem os homens para limpá-la e exterminá-la de todos os lugares, a poeira começou a crescer e se alastrar. Começou a tomar todos os lugares, se expandir em todos os cômodos de todas as casas, encrostar-se mais e mais nos objetos, quase como camuflando tudo do resto do mundo.

Ninguém esperava aquilo. Estavam todos chocados. E, numa cidade onde a chuva havia se cansado das intrigas e ido embora há muito tempo, somente o vento poderia tentar algo contra o ataque massivo da poeira.

Mas, onde havia poeira, não havia vento, e onde havia vento, não havia poeira. Assim, estabeleceu-se uma trégua. A cidade se dividiu em dois comandos: o ancião, mas ainda fortíssimo, vento; e a inteligente, mas subestimada, poeira.

Foi a trégua que se manteve por muito tempo, já que os homens nunca voltaram, nem nunca voltariam.

Os homens foram pegos numa cilada, planejada pelo ambicioso e egoísta mar.

Vendo a ganância dos homens, e seu crescente domínio, resolveu propôr a eles que viessem morar em sua casa. Argumentou que se sentia sozinho, abandonado pelas árvores, pela terra, até pela insignificante poeira.

Os homens, então, se aproveitaram da solidão do mar, para conquistar o segundo dos Três Reinos.

Migraram então para o mar. Foram, um a um, caminhando pelos tapetes de areia, entrando no abismo das águas.

Mas, eles haviam se esquecido que seu eterno aliado, o ar, era o eterno inimigo de seu irmão, o mar, e não seguiu-os para o fundo das águas. Nem sabia que os homens pretendiam tal coisa, e os próprios homens haviam se esquecido da longa briga entre mar e ar, e acabaram se perdendo nos longos corredores da mansão do mar, o eterno traiçoeiro que havia sido abandonado por todos. E continuaria assim, porque seu único aliado em muitas eras, o homem, enganou e matou em sua malevolência inexplicável.

Alguns diriam que os homens morreram sem conquistar o Terceiro Reino; diriam que conquistou o Reino da Terra, e morreu tentando conquistar o Reino das Águas, sem nunca conseguir conquistar o Reino dos Céus, eternamente cobiçado pelos homens, desde antes mesmo de se acostumarem com o Reino da Terra, o reino que lhes foi dado.

Mas eles conquistaram sim, tudo. Viveram na terra, perderam seus corpos nas águas, e dominaram os Céus com suas almas.

Enquanto a terra viveria eternamente sob as conseqüências dos atos dos homens, o mar se viu obrigado a fazer drásticas mudanças em sua imensurável mansão de água, agora que estava fadado a ter os corpos de todos os homens alojando seu reino. E, depois de tudo isso, a alma dos homens agora dançava pela imensidão dos Céus, num ritmo frenético, ao som intenso da voz do vento, assobiando baixinho, bem agudo, elogiando não a dança, que observava atentamente, mas a força do homem, sua vontade, mesmo que misturada com ganâncias e arrogâncias, porque, ainda assim, era uma determinação que ninguém jamais viu, ou veria novamente. Nem no observador vento, nem na esperta poeira, nem na experiente terra.

Era algo reservado aos homens, e a eles apenas.

Era isso o que os deu chances de conquistar os Três Reinos. E era isso o que os tornava aquilo que eram, aquilo que foram, aquilo que sempre serão.

Homem

quinta-feira, fevereiro 15, 2007 § 0

Já cheguei a achar que não poderia mais me surpreender comigo mesmo; que já conhecia quase tudo de mim; que só o que ainda não conhecia, era o que eu ainda mudaria em mim mesmo futuramente.

De repente, encontrei em mim um homem de esperança. Talvez sempre tenha sido assim, talvez tenha acabado de me tornar. Não importa. É o que sou agora.

Sinto correr em mim a esperança, esperança de segundas chances, esperança de que conseguirei o que quiser e lutar por.

Sinto correr em mim a força de vontade que esteve oculta há muitos anos, o poder de luta que havia perdido quando o mundo começou a se tornar fácil para mim.

Já cheguei a achar que não voltaria a ser o que fui outrora. Mas estava errado. Voltei a ser, e voltei mais forte.

De repente, acordei um homem de força, de esperanças, de vontades.

De repente, acordei um homem.

De Pesares, Vidas e Verdades

sexta-feira, fevereiro 09, 2007 § 0

Caminhando lentamente, ele chegou. Deu uma boa olhada em volta, sentindo uma espécie de desapontamento, porque era exatamente como as pessoas diziam (e ele, claro, esperava algo mais).

Parou no grande portão, e logo um senhor veio atendê-lo. Não viu de onde ele surgiu, mas também não se importava muito; naquele lugar, qualquer coisa era possível.

"Bem vindo" o senhor de cabelos brancos disse, em tom simpático. "Então é aqui?". "Sim, é aqui, e um pouco mais além, até mais ou menos o infinito". "Lugar simpático", terminou a conversa, de forma abrupta e irônica; não se sentia muito confortável com o senhor de cabelos brancos; era cliché demais para seu gosto.

"Então, agora é hora de você me perguntar se me arrependo de meus pecados, e blá blá blá, e então eu entro, certo?"

"Onde você ouviu essa baboseira? Eu tenho uma pergunta, sim, mas não é nem próxima disso. Só depende dela, e você então fará parte do enorme grupo que se encontra além deste portão, um grupo formado por muitos, muitos que você passou a vida ouvindo sobre, muitos que você nem imagina que tenham existido, outros que são os primeiros de todos. Mas você precisará responder com sinceridade, não importa qual seja a resposta."

"Vamos, estou morto, mas o tempo continua passando."

"O Tempo. Hahaha. Os homens nem imaginam o que isso realmente significa" pensava ele, mas deixou para explicar isso em outra hora mais apropriada.

"A única coisa que você precisa me dizer, jovem, é se existe algo que você se arrependa de ter feito, sem essa coisa de pecado que os homens inventaram. Você se sente tranqüilo com todas as decisões que tomou na vida, tenham sido boas ou ruins? Você gostaria de voltar e corrigir erros passados? Ou você não se arrepende de qualquer uma das idiotices que fez, das pessoas que fez sofrer propositalmente, das mentiras que contou...?"

Ele ainda estava um pouco intrigado. Era mais ou menos o que ele esperava, o tal papo do arrependimento, mas não tinha certeza do que deveria responder. Resolveu ir na sorte, seguindo o conselho de responder com sinceridade.

"Não. Não me arrependo de qualquer coisa. Menti, blasfemei, julguei, ignorei, ofendi, e tantas outras coisas, e não, não me arrependo de qualquer uma delas."

"Ótimo", o velho dizia, enquanto os portões iam se abrindo. "Siga a trilha, e encontrará o lugar que esteve reservado a você eternamente."

"Como assim? Eu acabei de dizer que não me arrependo de nada. Eu não deveria merecer este lugar. Deveria surgir um elevador aqui agora, me levando pra baixo, como todo mundo diz."

"Que tipo de lavagem fazem com vocês lá na Terra? Vamos lá, vou tentar deixar o mais claro possível a você. Isso aqui não é uma questão de ser bom ou ruim, como vocês gostam de colocar, porque, na verdade, esses termos nem existem; são coisas estúpidas que vocês criaram pra se auto-julgarem. Este lugar não está reservado para quem viva bem, para quem seja bom com os outros, e etc. Este lugar é para quem está de alma limpa. Não 'limpa' de não haver 'podres' carregados ao longo do tempo, mas limpa de consciência, de estar tranqüilo consigo mesmo, com as coisas que fez, com as decisões que tomou. Este é o fim. E o fim só está reservado a quem não tem mais relações com o passado. De nada adiantará ter uma vida falsa, almejando o dito 'Paraíso', se você chegar aqui sentindo que não viveu o que gostaria de viver, sentir um vazio em si mesmo. Essas são as pessoas que não estão preparadas para o fim, e são elas que voltam, e revivem suas próprias vidas, tentando então viver o que não viveram, e o fazem até terem a capacidade de chegar aqui, olhar nos meus olhos, e dizer que não se arrependem de nada, que viveram o que precisaram viver. Você já esteve aqui muitas vezes, mas pela primeira vez, atravessará os portões. O que existe do outro lado, você descobrirá logo mais, então, só te resta caminhar, como fez por todas as suas vidas. Caminhe através da trilha, e quem sabe, encontrará o fim dela. Mas não se importe com o tempo que leve, nem tente mudar o caminho; você só deve seguir o caminho que achar que deva seguir, e nunca, nunca voltar, nem se arrepender das esquinas que cruzou."

Águas Secas de Um Corpo Sem Vida

sábado, janeiro 27, 2007 § 0

Há muito tempo, eu fui alguém sentimental.

Há muito tempo, roubaram a sensibilidade de mim.

Já fui doce, meigo, gentil, e tantas outras coisas nobres e admiráveis.

Hoje, sou um velho sem nada. Hoje, sou as carcaças deixadas pelas pessoas ao longo de minha vida.

Já fui jovem, belo, respeitado e admirado. Tudo isso foi roubado de mim.

Não sinto mais nada. Me roubaram a capacidade de sentir, de chorar, de me emocionar, de me irritar. Sou hoje a estátua-humana pintada de branco, que só serve para divertir e assustar.

Sou, hoje, pedaços de outros, pedaços de histórias, pedaços de experiências, de memórias. Sou um protótipo de sentimentos, um protótipo infuncional, um robô com problemas técnicos deixado de canto para a eternidade, substituído pela sua versão 2.0.

Sou hoje os pedaços que constituíram uma vida uma vez. Sou o monstro de Frankeinstein.

Mentira.

Nunca poderia sê-lo. O monstro, por mais horrível que fosse, havia sido abençoado com o poder da sensibilidade. Sou menos que o monstro. Eu sou um monstro de Frankeinstein que nunca deu certo. Não acordei, não senti, não respirei, não vivi. Só o que fui, foram pedaços. Pedaços de sentimentos, de mim, e outros.

Distância

segunda-feira, janeiro 22, 2007 § 0

A distância não torna nossos sentimentos menos reais.

Só os torna mais ou menos intensos.

O Segredo do Medo

domingo, janeiro 21, 2007 § 0

As pessoas têm medo de segredos.

Não.

O que as pessoas temem é não saber o segredo dos outros.

Ninguém tem medo dos próprios segredos. Ele está seguro, seguro conosco, protegido. O que nós sentimos pelos nossos próprios segredos não é medo, é remorso e/ou arrependimento, e acabamos confundindo esse remorso por medo.

E quanto aos segredos alheios, também não é medo que sentimos. É uma mistura de insegurança, curiosidade e inveja. Inveja de querer saber o que apenas elas sabem (porque saber é poder, e poder é algo que todos almejamos); curiosidade de saber o que pode ser tão importante que deva ser guardado; e insegurança de que aquilo possa te afetar de alguma forma caso fosse descoberto (porque, afinal, somos nós a questão, sempre).

As pessoas têm medo. Claro que tem. Mas não é medo do segredo, não é medo das outras pessoas. As pessoas temem a si próprias. Temem as coisas terríveis que são capazes de fazer, e que só elas sabem que poderiam.

As pessoas são seus próprios medos.

Você é seu próprio medo.

De Brilhos e Pedras

segunda-feira, novembro 27, 2006 § 0

Conhecemos pessoas novas.

Ficamos fascinados por aquela pessoa, toda aquela beleza, aquelas palavras saindo de forma tão doce e delicada, aqueles questionamentos tão filosóficos.

Ficamos apaixonados por aquela pessoa, queremos conhecê-la mais e mais, e então começamos a conhecê-la, mais e mais.

Vamos cada vez mais fundo, e começamos a ver que a beleza não era tão bela, as palavras não eram tão doces, os questionamentos não eram tão filosóficos.

Profundo, fundo, a fundo, e percebemos que aquela pessoa tão especial não era tão diferente de nós mesmos.

Ou então, toda aquela semelhança que tinha conosco, na verdade era mais diferente do que imaginávamos.

De repente, o brilho do diamante se perde, tornando-o, mesmo que ainda um diamante, apenas mais uma pedra preciosa.

É preciosa, é rica, mas ainda assim, uma pedra.

Eu

sábado, novembro 25, 2006 § 0

Sou homem
Sou mulher
Sou cavalo
Sou lobo
Sou árvore
Sou flor
Sou areia
Sou pedra
Sou sol
Sou lua
Sou luz
Sou breu
Sou seu
Sou eu.

Gerundiando Dia-a-Dia

sexta-feira, novembro 24, 2006 § 0

Pessoas andando
Fugindo
Correndo
Pensando
Saindo
Entrando
Subindo
Controlando
Digirindo
Motivando
Ensinando
Caindo
Levantando
Pulando
Aprendendo
Abrindo
Fechando
Virando
Esquecendo
Sumindo
Se esvaindo...

A Cirurgia

terça-feira, outubro 17, 2006 § 0

A cirurgia foi inventada no dia em que o primeiro homem se atreveu a ir dentro de uma mulher.

(Em conseqüência disso, também foi inventado, além da cirurgia, o segundo homem).

Intro

quarta-feira, outubro 11, 2006 § 0

Ponto de interrogação.
Você já chegou a usá-lo?
Você já chegou a se questionar sobre a veracidade de algo?
Você já questionou o mundo?
Quem é o mundo?
Quem é você?
O que é aquilo que você vê na televisão todos os dias?
O que é a televisão?
O que são todas aquelas informações que transmitem a você?
Será que tudo aquilo é "benígno"?
Será que você é benígno?
Será que somos todos racionais?
Teríamos, nós, consciência de tudo?
Seríamos, nós, fantoches do mundo?
Fazemos jus a lei da ação e reação?
A mídia age, o governo age, o mundo age.
Deveríamos nós reagir?
Ou seria mais confortável permanecermos em estado catatônico?

Geralmente Pessoas

domingo, outubro 08, 2006 § 0

Algumas vezes, na presença de alguma pessoa, eu começo a perceber como a pessoa é única. Começo a reparar em como a pessoa é rica de características, de sentimentos, de histórias... E começo a perceber que uma pessoa é algo realmente extraordinário.

Não uma dúzia de pessoas, não 300.000 pessoas, mas uma pessoa.

E é nisso onde eu me pergunto, "por que as pessoas generalizam tanto"? Por que raios as pessoas tratam a si mesmas de uma forma geral, descompromissadas, desinteressadas?

É um pecado que uma pessoa só fique feliz se vir que conhece 400, 600, 1000 pessoas.

É preciso que se veja as pessoas de forma única, porque é isso; cada pessoa é uma pessoa. É preciso que as pessoas entendam que uma pessoa significa muitas coisas, muitos sentimentos, muitos pensamentos. Uma única pessoa é um "englobamento" de N características, de N histórias, e de N sentimentos. E parece que as pessoas estão se limitando a se tratarem de forma geral, como números, como se todas essas coisas que uma pessoa carrega significassem nada; como se tudo o que elas representam são números.

E é esse tipo de pensamento, esse tipo de ação superficial, que cria esses individualismos que matam uma sociedade, e a própria pessoa, fazendo-a se fechar em si, acabando sozinha, sem se importar com ninguém, mas querendo a todos.

Só o que as pessoas precisam é começar a se tratar de forma especial, como se cada pessoa fosse a única pessoa. Porque, basicamente, é isso: cada pessoa é a única pessoa, a partir do momento em que sabemos que ela é única. Deu pra entender?

Só o que é preciso, é que as pessoas tratem as coisas de forma mais pessoal. Só isso.
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